
"...Só de pensar no latão sobre rodas bambas, desalinhadas, sacudindo de um lado para o outro, enquanto volteava as montanhas que feriam o céu com sua enormidade, tinha enjôos. A laçada no estômago manifestava-se sempre no mesmo ponto; ali, no atalho dos bananais, abaixo da região da Água Rasa, acentuada pela trepidação do encascalhamento daquele trecho de pista e pelo desconforto das curvas que se embaraçavam. O saculejo era tanto que, antes que ocorresse o pior, melhor tapear a azanga estomacal, entupindo-se com alguma guloseima à base de fubá. Por mais que roncassem ou arrotassem um cheiro vivo de combustível, os ônibus escadeirados da Viação Estrela Vermelha, em sua tartaruguice, relutavam em chegar ao destino, como se o evitassem cumprir. Anabella recordava-se de Bela Maríssima, a irmã mais nova, com quem viera de Ladainha, já no apagar do calendário letivo, com o fim de conseguir colocação no Colégio Estadual Alfredo Sá, uma escola pública concorrida até pelos nativos da Cidade Grande, para onde haveriam de se transferir no ano seguinte quando do recomeço das aulas. Além de “melhorar de vida”, como pronunciara a mãe, havia naquele novo rumo uma intenção de fuga que não se admitia em voz alta. “Às vezes é preciso cortar as asas do destino para que vá mais devagar, já que se livrar dele ninguém pode”, ensinava Alaíde Auxiliadora, a mãe, sem se atrever aos detalhes. Entretanto, o projeto da mudança frustrou-se, debilitado pela febre bovina que fora noticiada com pânico no último semestre. A peste avassaladora que esvaziou os currais da família e empobreceu ainda mais o Vale do Mucuri e seu mapa empinhado de comunidades deprimidas, rareando o leite que nunca chegou a ser farto, cancelou a transferência das filhas. Ainda assim, a irmã de língua solta, a mais jovem, que nunca pôs a cofres os seus sonhos, continuou tendo um prazer muito seu em embarcar no gaiolão da Estrela Vermelha. E com cuidados de deixar tudo aquilo registrado, colecionava as tirinhas impressas em papel poroso, como eram as passagens da época, no verso das quais ia apontando o feito, quando, e por que houvera, além de relatar detalhes que só a ela diziam respeito. Depois as organizava por data, como fossem um diário de bordo do seu ir e vir. Agora, o último dos zelos estava em não se esquecer de abrigá-las numa delicada caixa de madeira nobre, melhorada com verniz industrial e forro de feltro aveludado, colorido em alaranjado tônico, na qual o pai obtuso não mais cuidou de guardar as peças de dominó trabalhadas em falso osso de javali..." (VERDADES INTOLERÁVEIS)





