sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Verdades Intoleráveis" - Fragmento 6.


"...Só de pensar no latão sobre rodas bambas, desalinhadas, sacudindo de um lado para o outro, enquanto volteava as montanhas que feriam o céu com sua enormidade, tinha enjôos. A laçada no estômago manifestava-se sempre no mesmo ponto; ali, no atalho dos bananais, abaixo da região da Água Rasa, acentuada pela trepidação do encascalhamento daquele trecho de pista e pelo desconforto das curvas que se embaraçavam. O saculejo era tanto que, antes que ocorresse o pior, melhor tapear a azanga estomacal, entupindo-se com alguma guloseima à base de fubá. Por mais que roncassem ou arrotassem um cheiro vivo de combustível, os ônibus escadeirados da Viação Estrela Vermelha, em sua tartaruguice, relutavam em chegar ao destino, como se o evitassem cumprir. Anabella recordava-se de Bela Maríssima, a irmã mais nova, com quem viera de Ladainha, já no apagar do calendário letivo, com o fim de conseguir colocação no Colégio Estadual Alfredo Sá, uma escola pública concorrida até pelos nativos da Cidade Grande, para onde haveriam de se transferir no ano seguinte quando do recomeço das aulas. Além de “melhorar de vida”, como pronunciara a mãe, havia naquele novo rumo uma intenção de fuga que não se admitia em voz alta. “Às vezes é preciso cortar as asas do destino para que vá mais devagar, já que se livrar dele ninguém pode”, ensinava Alaíde Auxiliadora, a mãe, sem se atrever aos detalhes. Entretanto, o projeto da mudança frustrou-se, debilitado pela febre bovina que fora noticiada com pânico no último semestre. A peste avassaladora que esvaziou os currais da família e empobreceu ainda mais o Vale do Mucuri e seu mapa empinhado de comunidades deprimidas, rareando o leite que nunca chegou a ser farto, cancelou a transferência das filhas. Ainda assim, a irmã de língua solta, a mais jovem, que nunca pôs a cofres os seus sonhos, continuou tendo um prazer muito seu em embarcar no gaiolão da Estrela Vermelha. E com cuidados de deixar tudo aquilo registrado, colecionava as tirinhas impressas em papel poroso, como eram as passagens da época, no verso das quais ia apontando o feito, quando, e por que houvera, além de relatar detalhes que só a ela diziam respeito. Depois as organizava por data, como fossem um diário de bordo do seu ir e vir. Agora, o último dos zelos estava em não se esquecer de abrigá-las numa delicada caixa de madeira nobre, melhorada com verniz industrial e forro de feltro aveludado, colorido em alaranjado tônico, na qual o pai obtuso não mais cuidou de guardar as peças de dominó trabalhadas em falso osso de javali..." (VERDADES INTOLERÁVEIS)

"Verdades Intoleráveis" - Fragmento 1.


“...Do hábito de voltar para casa, extraíra um prazer que cheirava à recompensa, embora parecesse sugado de suas forças depois do dia de labor. A ausência de cores com que o prédio recebia aquele homem de sentimentos desconhecidos, não tinha para ele qualquer importância, vez que não queria nada que o mundo escolhesse lhe dar. Era em si mesmo que esperava encontrar tudo de que precisasse, ou haveria de ser sempre ele a estender a mão para tomar posse do que escolhia. Portanto, depois de uma extenuante jornada de trabalho, ainda iria cruzar a rua com a solenidade de quem parece ter esgotados todos os compromissos que lhe couberam nesta existência. Qualquer que o percebesse, teria a sensação de que ali estava um homem que podia ver a vida interrompida já, já que sugeria não ter saldos pendentes, inimizades a desembaraçar ou um grande perdão a pedir. Empurrado por uma clara falta de pressa, o buscador de oportunidades olhou para um lado e para o outro, e executou doze ou treze passos medidos, talvez mais, até ganhar o sombreiral, no lado oposto, entre árvores e cercados dos quais irrompiam flores delicadas, pouco comuns. Na calçada, reparou o desenho desengonçado de outra flor, conhecida marca de um partido político, o PDT, obra que rendeu trabalheira danada aos azulejistas contratados pelo prefeito correligionário. Era um inventor de modas, um saco de bestialidades, um gestor de pequenices, “um populista do caralho”, balbuciou. Entretanto, adiante, alheio ao apelo visual dos falsos socialistas, foi que Benjamim deparou-se com um registro do passado esperando-o no corpo de uma surpresa: uma castanha! Daquelas rechonchudas, cálidas, explodindo de tão madura, ela havia se desgarrado da mais antiga árvore-mãe daquele trecho de rua, atravessando, a destrambelhada, o caminho do colecionador de ganhos. Embora sugerisse exagero, admissível até que podia ser a idéia de que um fruto erradio, posto ali como num capricho do destino, servisse à tarefa de surpreender o homem de gelo, detentor de quantas conquistas. Diferentemente do que muitos chegaram a pensar, aquela alma de presente resolvido enterrava esqueletos no sótão de suas lembranças. Para exumá-los, precisava mais do que somente vasculhar outros níveis da consciência ou acordar seus conflitos... (VERDADES INTOLERÁVEIS)

"Verdades Intoleráveis" - Fragmento 2.


“... aquele mundão de água arrastava-se pela planície como uma serpente que leva, sem o sentimento de fúria, mas com o instinto da sobrevivência, o bicho preá ainda respirando em seu estômago. As depressões adiante, onde os arrozais ocupariam o espaço dos lírios do campo e das águas-de-cheiro, viravam um lago só, afogando os quintais de secar café e bater feijão e arroz. Os ceveiros das pombas-da-mata, juritis e outras rolas catarem cascas e resto de sementes também submergiam. Quem tinha destreza de nadador, feito seus três irmãos, podia boiar junto à cumeeira dos pomares, colhendo frutas coradas, as mais belas, que os sanhaços alcançavam para bicar, mesmo que não as devorassem. Cutucá-las, era de sua natureza. “Cuidado com os ovos e, ainda mais, com os filhotes”, recomendava Eugênio aos irmãos aventureiros que se incumbiam de resgatar ninhadas de sabiás e bem-te-vis, tirando a refeição das cobras d’água que deslizavam no espelho do alagadiço em busca de. Também era tempo de não se ter molho de peixe à mesa, pois as traíras, próprias das rasuras, sumiam com o carrossel das águas. Logo, armar anzóis nos remansos onde temporariamente não havia lama, era perda de tempo. Se tivesse a isca ideal, ficava fácil suprir a mesa com fritura de bagres barrigudos que se traíam por suas bocas enormes e apetite irracional, fervilhando nas vazantes sujas e rápidas do Rio das Almas. As partes mais altas do pasto baixo que a enchente não atingia, depois de formarem ilhotas solitárias, manchavam-se pelo branco das garças selvagens que, alheias a tudo, papavam insetos nadadores e pequenas rãs. Desfolhados tantos calendários, Eugênio ainda podia sentir o cheiro de gordura de porco fritando os bagres retalhados diagonalmente, envoltos em farinha de trigo, como lesmas gosmentas, presas possíveis até para os pescadores menos aptos...” (VERDADES INTOLERÁVEIS)

"Verdades Intoleráveis" - Fragmento 3.


“... além da desestima e dos limites inimagináveis que lhe foram impostos, apanhou tanto do pai que perdeu, por muitos anos, a voz miúda e sem graça que o acompanhava. Só dava conta de sacudir a cabeça pelo sim e pelo não, o que, para o seu carrasco, já era demais. Sempre que o pai se lembrava da tragédia do Bom Jesus, da qual tomara parte o filho, bebia os goles mais mordentes de sua vida, para se tomar de coragem e cumprir outra sessão de malvadeza e de escarmentos desumanos. Nem o pedido emocionado de dona Beta, a religiosa da escola, quase uma santa, com olhos avermelhados de choro, serviu-lhe como freio. As lições sobre perdão e generosidade com que a beata cercou o pai brutamontes, de nada adiantaram. Sempre depois de surrado, Benjamim viu-se obrigado a dormir com uma enorme boneca sem cabelos, com um olho furado, cujos membros deformaram-se por ter caído num braseiro de noite de São Pedro, e que, a contar de então, habitaria a sua cama até o fim da temporada de aulas. Segundo a mãe, sujeitá-lo a dividir a cama com a boneca, a horrenda esquecida pela filha de uma visitante, servia para que aprendesse respeito “pelo bicho que usa saia”. O acumulador de lucros compeliu-se ainda a ofícios que, na época, eram exclusividade das meninas e que, só de praticá-los, por um minuto que tivesse sido, punha em dúvida a masculinidade de qualquer zangão. Foi obrigado, portanto, a carregar a brasa acesa das dúvidas de ter sido “mulherzinha” ao tempo de um ano ou mais. Limpou privada, cortou verduras e lavou e cerziu roupa íntima do pai e da mãe como reprimenda. Para ser contido em casa depois do horário de aulas, impedindo-o de juntar-se aos moleques que anarquizavam num improvisado campo de peladas no fundo do Bom Jesus, metiam-no, sem o esboço de qualquer resistência, num vestidinho plissado com motivos florais que a mãe cosera atendendo à demanda do castigo. Aceitava o vestido sem protestos e sem, sequer, levantar os olhos que pareciam ter morrido. O resto do dia, às vezes sem comer ou beber, ficava sentado na cama magra, economizando palavra, enquanto aguardentava a seiva do seu sofrimento sem boca...” (VERDADES INTOLERÁVEIS)

"Verdades Intoleráveis" - Fragmento 4.


“...Se ria, arruinava a figura de mulher, pois um eco grave na caixa torácica respondia com um pigarro pouco feminino. Mas era passageiro. Os brincos enormes, na forma de argola, completavam aquela visão esfuziante que se encarregava de acobertar uma existência sufocada por outra existência. Com o silêncio daqueles que ignoram para não sofrer, é que tentou dizer “não se preocupe, cuido de você”. Acuado, como um cão posto em jaula de leões, o parceiro esperou passivamente enquanto ela avançava, oferecendo as iniciativas. Com a ciência de quem conhece os trilhos da invasão, abriu o fecho éclair, puxando-lhe a calça até o meio das pernas, sem que antes tivesse permitido ser tocada. Até onde foi possível, desnudou-o com uma delicadeza exagerada que, por mais feminina que pretendesse ser, permitia vazar um ritual próprio dos homens. A quase cabal forma de mulher traía-se, escorregando no detalhe, e aquilo tinha o poder de atrofiar os braços da aparente verdade. Ali morava a denúncia de um engano, a suspeita de uma fraude, algo postiço que o parceiro em chamas, não dera conta de descobrir. Ou nem tivera tempo. O homem, vencido em suas reservas, posto nas mãos de Anabella, não quis detalhamentos, tarde que era. Nada de resistir já que se embaraçara no corpo escorregadio daquele pecado. Nem lhe pareceu possível resistir a tanto. Como não autorizava que fosse tocada, pois não se permitiria conhecida por quem quer que fosse, o iniciado aceitou levar-se por aquela dança de duzentos braços como um polvo, enquanto Anabella cuidava de resguardar o que não deveria ser revelado. Afinal, ofereceu a armadilha do seu mistério mais do que a si mesma. Dali, vergada sobre o colo do homem, pôde vê-lo quase em transe, com os olhos fechados como se assumindo todo o risco, ainda que não tivesse dito “vai em frente”. Anabella, a serva que controlava, começou trabalhando beijos breves e de igual brandura, carimbando com eles peito, barriga e coxas do estranho que se deixara finalmente vencer. A única ação do homem foi pôr-lhe uma das mãos na cabeça, confirmando o seu deleite e reafirmando sua entrega. Por entender que o gesto do possuído alimentava a intenção de ter as rédeas do animal arisco que aceitaram galopar, rejeitou-o Anabella, já que não aceitava ser comandada nem em tais circunstâncias...” (VERDADES INTOLERÁVEIS)

"Verdades Intoleráveis" - Fragmento 5.



“...Por menos que desejasse, voltou a pensar no pai. Ocorreu-lhe que o velho tinha o hábito de sair de fininho, escalando o pé de noite, esgueirando-se pelas goteiras, envolto em uma capa plástica, para cepar traíras entre os pés de milho que se alagaram. Com luz de lanterna, cegava-as nos remansos antes de lhes golpear com as costas do facão. Assim, ia fartando a fieira de arame que resistia ao peso do pescado cheirando a ferrugem. Noutro quadro, Eugênio observava-o na ponte estreita de beirais de galhos de goiabeira, amarrados com chicotes de piaçava e cordas de São João – um conhecido cipó que crescia naquelas paragens – que ia até o meio do rio enlarguecido pelo volume das chuvas. O pai, capturado naquele cenário que mais parecia uma pintura, com as pernas dentro da água que lhe alcançava a barra da calça dobrada até pouco abaixo do joelho, pescava como se não tivesse prazer algum em fazê-lo. Aliás, aquele braço de ponte que balançava quando trotavam sobre ele, servia apenas ao objetivo da pescaria e nada mais. Debaixo do chapéu de pouco uso, de abas exageradas, o pai fumava com a calma dos homens bons. Tragava um cigarro torto, fedorento, feito para espantar insetos sanguessugas que, no anoitecer, empinhavam, atacando até a lente dos olhos. Era como se aquele estranho houvesse chegado com as enchentes para tomar o lugar do pai e, com o baixar das águas, pretendesse se ir. Enquanto mantinha o anzol na escuridão do poço, nem piscar piscava, mas, vez ou outra, fazia circunferências com a fumaça saída da boca, assoprando-a aos céus e calculando que houvera envelhecido. Já era velho o suficiente para pescar lembranças de amores que cruzaram a ponte mambembe da suas aventuras. Mas enquanto pudesse ser estátua, perdia-se de repassá-los todos sem descobrir onde cometera erro maior na vida...” (VERDADES INTOLERÁVEIS)

O que disse o crítico Osvaldo Guarilha:





Até que ponto um adulto pode ser influenciado pelos traumas da infância? Eles o ajudarão na busca do sucesso e da superação? Ou serão um estorvo para o resto da vida, mantendo o indivíduo no terreno do fracasso? Depende da determinação de cada um.
Benjamin é um desses muitos atormentados pela infância e adolescência conturbadas. Aos 26 anos, é um homem rico. Fazer dinheiro incessantemente é a sua especialidade e razão de viver. Excêntrico, seco e antipático, mora na cidade grande, enfurnado num prédio velho e feio chamado Parque Pardais. Há no sombrio edifício mais três moradores: Anabella, a estranha e notívaga caçadora de prazeres; Eloíse, a aprendiz de bruxarias que ninguém vê quando chega ou sai; e Eugênio, o quase-morto que nunca escapa do seu apartamento. Quatro indivíduos morando no mesmo lugar. Nunca se vêem, mas por alguma razão se conhecem e se detestam. Em comum a todos, dois fatos: vieram do interior e possuem profundas dores na alma. Mas cada um deles reage às feridas de forma diferente.
Este é o ponto central do livro “VERDADES INTOLERÁVEIS”, do escritor mineiro Roberto Marcos. Escrito em linguagem impecável e atraente, usando o coloquial e o rebuscado sem exageros, Roberto nos apresenta quatro personagens bem construídos e invade-lhes a alma com competência. Capítulo a capítulo, a história vai aumentando em dramaticidade e suspense, ora confundindo, ora surpreendendo o leitor. Sua capacidade de esmiuçar detalhes, sem tornar a leitura cansativa, faz-nos ver as pessoas e as paisagens e vivenciar situações como se estivéssemos no cinema quase.
Gradativamente, o autor vai unindo os personagens que se detestam, e as coloca frente a frente com as verdades intoleráveis. E agora? Como cada uma dessas almas atormentadas enfrentará esse desafio? Nem tentem imaginar o final. Ele é tão surpreendente quanto à própria história.
VERDADES INTOLERÁVEIS, um dos melhores livros que já li, foi escrito por um homem ainda desconhecido pela esmagadora maioria dos brasileiros.
OSVALDO GUARILHA