
“...Por menos que desejasse, voltou a pensar no pai. Ocorreu-lhe que o velho tinha o hábito de sair de fininho, escalando o pé de noite, esgueirando-se pelas goteiras, envolto em uma capa plástica, para cepar traíras entre os pés de milho que se alagaram. Com luz de lanterna, cegava-as nos remansos antes de lhes golpear com as costas do facão. Assim, ia fartando a fieira de arame que resistia ao peso do pescado cheirando a ferrugem. Noutro quadro, Eugênio observava-o na ponte estreita de beirais de galhos de goiabeira, amarrados com chicotes de piaçava e cordas de São João – um conhecido cipó que crescia naquelas paragens – que ia até o meio do rio enlarguecido pelo volume das chuvas. O pai, capturado naquele cenário que mais parecia uma pintura, com as pernas dentro da água que lhe alcançava a barra da calça dobrada até pouco abaixo do joelho, pescava como se não tivesse prazer algum em fazê-lo. Aliás, aquele braço de ponte que balançava quando trotavam sobre ele, servia apenas ao objetivo da pescaria e nada mais. Debaixo do chapéu de pouco uso, de abas exageradas, o pai fumava com a calma dos homens bons. Tragava um cigarro torto, fedorento, feito para espantar insetos sanguessugas que, no anoitecer, empinhavam, atacando até a lente dos olhos. Era como se aquele estranho houvesse chegado com as enchentes para tomar o lugar do pai e, com o baixar das águas, pretendesse se ir. Enquanto mantinha o anzol na escuridão do poço, nem piscar piscava, mas, vez ou outra, fazia circunferências com a fumaça saída da boca, assoprando-a aos céus e calculando que houvera envelhecido. Já era velho o suficiente para pescar lembranças de amores que cruzaram a ponte mambembe da suas aventuras. Mas enquanto pudesse ser estátua, perdia-se de repassá-los todos sem descobrir onde cometera erro maior na vida...” (VERDADES INTOLERÁVEIS)
Boa tarde, Roberto!
ResponderExcluirA partir da divulgação do lançamento do seu livro na CBJE, encontrei seu blog. Fucei e achei muito bacanas os fragmentos disponíveis no seu blog.
É um trabalho interessante.
Também estou escrevendo para manter contato com alguém que publicou peLa Câmara, uma vez que tenho um livro em análise para ser editado e publicado por eles.
Se você puder, gostaria que me explicasse alguns pontos:
1. Você ficou satisfeito com a edição da CBJE;
2. Eles fazem a ficha catalográfica do livro;
3. O material de capa e miolo é bom;
4. A diagramação feita por eles é agradável, profissional;
5. Você indica a CBJE para futuras publicações.
Aguardo seu retorno, contando, desde já, com sua colaboração.
Abraços,
Josafá Gomes
081-86001786
www.leituraclandestina.blogspot.com