sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Verdades Intoleráveis" - Fragmento 2.


“... aquele mundão de água arrastava-se pela planície como uma serpente que leva, sem o sentimento de fúria, mas com o instinto da sobrevivência, o bicho preá ainda respirando em seu estômago. As depressões adiante, onde os arrozais ocupariam o espaço dos lírios do campo e das águas-de-cheiro, viravam um lago só, afogando os quintais de secar café e bater feijão e arroz. Os ceveiros das pombas-da-mata, juritis e outras rolas catarem cascas e resto de sementes também submergiam. Quem tinha destreza de nadador, feito seus três irmãos, podia boiar junto à cumeeira dos pomares, colhendo frutas coradas, as mais belas, que os sanhaços alcançavam para bicar, mesmo que não as devorassem. Cutucá-las, era de sua natureza. “Cuidado com os ovos e, ainda mais, com os filhotes”, recomendava Eugênio aos irmãos aventureiros que se incumbiam de resgatar ninhadas de sabiás e bem-te-vis, tirando a refeição das cobras d’água que deslizavam no espelho do alagadiço em busca de. Também era tempo de não se ter molho de peixe à mesa, pois as traíras, próprias das rasuras, sumiam com o carrossel das águas. Logo, armar anzóis nos remansos onde temporariamente não havia lama, era perda de tempo. Se tivesse a isca ideal, ficava fácil suprir a mesa com fritura de bagres barrigudos que se traíam por suas bocas enormes e apetite irracional, fervilhando nas vazantes sujas e rápidas do Rio das Almas. As partes mais altas do pasto baixo que a enchente não atingia, depois de formarem ilhotas solitárias, manchavam-se pelo branco das garças selvagens que, alheias a tudo, papavam insetos nadadores e pequenas rãs. Desfolhados tantos calendários, Eugênio ainda podia sentir o cheiro de gordura de porco fritando os bagres retalhados diagonalmente, envoltos em farinha de trigo, como lesmas gosmentas, presas possíveis até para os pescadores menos aptos...” (VERDADES INTOLERÁVEIS)

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