sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Verdades Intoleráveis" - Fragmento 3.


“... além da desestima e dos limites inimagináveis que lhe foram impostos, apanhou tanto do pai que perdeu, por muitos anos, a voz miúda e sem graça que o acompanhava. Só dava conta de sacudir a cabeça pelo sim e pelo não, o que, para o seu carrasco, já era demais. Sempre que o pai se lembrava da tragédia do Bom Jesus, da qual tomara parte o filho, bebia os goles mais mordentes de sua vida, para se tomar de coragem e cumprir outra sessão de malvadeza e de escarmentos desumanos. Nem o pedido emocionado de dona Beta, a religiosa da escola, quase uma santa, com olhos avermelhados de choro, serviu-lhe como freio. As lições sobre perdão e generosidade com que a beata cercou o pai brutamontes, de nada adiantaram. Sempre depois de surrado, Benjamim viu-se obrigado a dormir com uma enorme boneca sem cabelos, com um olho furado, cujos membros deformaram-se por ter caído num braseiro de noite de São Pedro, e que, a contar de então, habitaria a sua cama até o fim da temporada de aulas. Segundo a mãe, sujeitá-lo a dividir a cama com a boneca, a horrenda esquecida pela filha de uma visitante, servia para que aprendesse respeito “pelo bicho que usa saia”. O acumulador de lucros compeliu-se ainda a ofícios que, na época, eram exclusividade das meninas e que, só de praticá-los, por um minuto que tivesse sido, punha em dúvida a masculinidade de qualquer zangão. Foi obrigado, portanto, a carregar a brasa acesa das dúvidas de ter sido “mulherzinha” ao tempo de um ano ou mais. Limpou privada, cortou verduras e lavou e cerziu roupa íntima do pai e da mãe como reprimenda. Para ser contido em casa depois do horário de aulas, impedindo-o de juntar-se aos moleques que anarquizavam num improvisado campo de peladas no fundo do Bom Jesus, metiam-no, sem o esboço de qualquer resistência, num vestidinho plissado com motivos florais que a mãe cosera atendendo à demanda do castigo. Aceitava o vestido sem protestos e sem, sequer, levantar os olhos que pareciam ter morrido. O resto do dia, às vezes sem comer ou beber, ficava sentado na cama magra, economizando palavra, enquanto aguardentava a seiva do seu sofrimento sem boca...” (VERDADES INTOLERÁVEIS)

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