
“...Do hábito de voltar para casa, extraíra um prazer que cheirava à recompensa, embora parecesse sugado de suas forças depois do dia de labor. A ausência de cores com que o prédio recebia aquele homem de sentimentos desconhecidos, não tinha para ele qualquer importância, vez que não queria nada que o mundo escolhesse lhe dar. Era em si mesmo que esperava encontrar tudo de que precisasse, ou haveria de ser sempre ele a estender a mão para tomar posse do que escolhia. Portanto, depois de uma extenuante jornada de trabalho, ainda iria cruzar a rua com a solenidade de quem parece ter esgotados todos os compromissos que lhe couberam nesta existência. Qualquer que o percebesse, teria a sensação de que ali estava um homem que podia ver a vida interrompida já, já que sugeria não ter saldos pendentes, inimizades a desembaraçar ou um grande perdão a pedir. Empurrado por uma clara falta de pressa, o buscador de oportunidades olhou para um lado e para o outro, e executou doze ou treze passos medidos, talvez mais, até ganhar o sombreiral, no lado oposto, entre árvores e cercados dos quais irrompiam flores delicadas, pouco comuns. Na calçada, reparou o desenho desengonçado de outra flor, conhecida marca de um partido político, o PDT, obra que rendeu trabalheira danada aos azulejistas contratados pelo prefeito correligionário. Era um inventor de modas, um saco de bestialidades, um gestor de pequenices, “um populista do caralho”, balbuciou. Entretanto, adiante, alheio ao apelo visual dos falsos socialistas, foi que Benjamim deparou-se com um registro do passado esperando-o no corpo de uma surpresa: uma castanha! Daquelas rechonchudas, cálidas, explodindo de tão madura, ela havia se desgarrado da mais antiga árvore-mãe daquele trecho de rua, atravessando, a destrambelhada, o caminho do colecionador de ganhos. Embora sugerisse exagero, admissível até que podia ser a idéia de que um fruto erradio, posto ali como num capricho do destino, servisse à tarefa de surpreender o homem de gelo, detentor de quantas conquistas. Diferentemente do que muitos chegaram a pensar, aquela alma de presente resolvido enterrava esqueletos no sótão de suas lembranças. Para exumá-los, precisava mais do que somente vasculhar outros níveis da consciência ou acordar seus conflitos... (VERDADES INTOLERÁVEIS)
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