
“...Se ria, arruinava a figura de mulher, pois um eco grave na caixa torácica respondia com um pigarro pouco feminino. Mas era passageiro. Os brincos enormes, na forma de argola, completavam aquela visão esfuziante que se encarregava de acobertar uma existência sufocada por outra existência. Com o silêncio daqueles que ignoram para não sofrer, é que tentou dizer “não se preocupe, cuido de você”. Acuado, como um cão posto em jaula de leões, o parceiro esperou passivamente enquanto ela avançava, oferecendo as iniciativas. Com a ciência de quem conhece os trilhos da invasão, abriu o fecho éclair, puxando-lhe a calça até o meio das pernas, sem que antes tivesse permitido ser tocada. Até onde foi possível, desnudou-o com uma delicadeza exagerada que, por mais feminina que pretendesse ser, permitia vazar um ritual próprio dos homens. A quase cabal forma de mulher traía-se, escorregando no detalhe, e aquilo tinha o poder de atrofiar os braços da aparente verdade. Ali morava a denúncia de um engano, a suspeita de uma fraude, algo postiço que o parceiro em chamas, não dera conta de descobrir. Ou nem tivera tempo. O homem, vencido em suas reservas, posto nas mãos de Anabella, não quis detalhamentos, tarde que era. Nada de resistir já que se embaraçara no corpo escorregadio daquele pecado. Nem lhe pareceu possível resistir a tanto. Como não autorizava que fosse tocada, pois não se permitiria conhecida por quem quer que fosse, o iniciado aceitou levar-se por aquela dança de duzentos braços como um polvo, enquanto Anabella cuidava de resguardar o que não deveria ser revelado. Afinal, ofereceu a armadilha do seu mistério mais do que a si mesma. Dali, vergada sobre o colo do homem, pôde vê-lo quase em transe, com os olhos fechados como se assumindo todo o risco, ainda que não tivesse dito “vai em frente”. Anabella, a serva que controlava, começou trabalhando beijos breves e de igual brandura, carimbando com eles peito, barriga e coxas do estranho que se deixara finalmente vencer. A única ação do homem foi pôr-lhe uma das mãos na cabeça, confirmando o seu deleite e reafirmando sua entrega. Por entender que o gesto do possuído alimentava a intenção de ter as rédeas do animal arisco que aceitaram galopar, rejeitou-o Anabella, já que não aceitava ser comandada nem em tais circunstâncias...” (VERDADES INTOLERÁVEIS)
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